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Implementação de VBHC na América Latina: O predomínio do Fee-For-Service

Marcia Makdisse, MD, PhD, MBA, VBHC Green Belt, MSc Health Care Transformation

Educadora, Pesquisadora & Mentora em VBHC | VBHC Educator, Researcher & Advisor.



O fee-for-service, modalidade de pagamento no qual os profissionais e serviços de saúde são remunerados por cada atendimento prestado, é o modelo predominante nos diversos sistemas de saúde. A consequência natural é a busca por aumentar cada vez mais o volume de atendimentos, independente dos resultados obtidos, resultando em fragmentação do cuidado, sobreutilização de intervenções de baixo valor e enorme variação de prática, desfechos e custos.


Afinal conforme a citação de Paul Batalden, frequentemente mencionada como um princípio para a melhoria da qualidade pelos membros do Institute for Healthcare Improvement (IHI):


“Todo sistema é perfeitamente desenhado para obter os resultados que obtém”. Paul B. Batalden, MD, Senior Fellow, Institute for Healthcare Improvement (IHI)

Ou seja, um modelo que remunera por volume consequemente irá gerar cada vez mais volume!

ACHADOS DO PROJETO VBHC NA AMÉRICA LATINA


Os resultados do projeto VBHC na América Latina, no qual avaliamos 70 organizações de saúde de cinco países latino-americanos (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e México), mostram que em 49% delas nenhum modelo alternativo ao fee-for-service havia sido implementado, em 30% das organizações havia modelos alternativos implementados porém o pagamento por performance estava atrelado apenas a métricas de processo e, em 21%, os modelos alternativos estavam atrelados focavam na pertinência do cuidado, especialmente programas de segunda opinião, ou apenas à redução do custo.



Uma análise mais detalhada dos modelos de pagamento vigentes mostrou que 91% das organizações eram remuneradas predominantemente no modelo fee-for-service, sendo que 54% eram remuneradas exclusivamente nessa modalidade, enquanto 37% das organizações já estavam experimentando outras modalidades de pagamento, em combinação com o fee-for-service, como capitation, orçamento global, pagamento por bundles episódicos ou acordos baseados em performance. Cerca de 4% das organizações referiram participar de acordos de compartilhamento de risco com pagadores e/ou com a indústria de dispositivos médicos.



Chamou a atenção o fato de que nenhum dos modelos alternativos de pagamento, mapeados na pesquisa, atrelava parte da remuneração aos desfechos, o que impede que tais modelos sejam rotulados de “modelos de remuneração baseados em valor”, segundo a definição proposta por Kaplan e Porter:


“Precisamos de uma maneira melhor de pagar pelos serviços de saúde. Um modo que remunere melhor os prestadores que oferecem valor superior aos pacientes: ou seja, por alcançarem melhores desfechos a um custo menor.” Michael Porter, Robert Kaplan. How to Pay for Health Care, HBR, 2016

O desafio de mudar o modelo de pagamento na América Latina:


“Existe uma assimetria de interesses entre os diversos stakeholders, incluindo os profissionais da saúde, os pagadores, o hospital e, é claro, o usuário final e, infelizmente, o sistema de pagamento que prevalece na maioria dos países contribui para a geração dessa assimetria de interesses”. (Entrevistado #34)

A reflexão que queremos deixar para nossos leitores é:


“Os modelos de pagamento baseados em valor, também conhecidos como acordos de pagamento baseados em desfechos, devem incluir como elementos fundamentais a cobertura de episódios ou ciclos de cuidado, a monitorização de desfechos e custos, o compartilhamento de risco e componentes de incentivo à qualidade que atrelem parte do pagamento aos desfechos alcançados. Nesse sentido, o co-desenho da linha de cuidado com o time clínico e não clínico, a coordenação do cuidado e a seleção das métricas que irão compor o dashboard de Valor são essenciais para que o modelo seja bem sucedido”. Marcia Makdisse, Academia VBHC

O artigo completo poderá ser acessado em: https://bmjopen.bmj.com/content/12/6/e058198


Referências:


1. Makdisse M, Ramos P, Malheiro D, et al. Value-based healthcare in Latin America: a survey of 70 healthcare provider organisations from Argentina, Brazil, Chile, Colombia and Mexico. BMJ Open 2022;12:e058198. doi: 10.1136/bmjopen-2021-058198


2. Carr S. “Editor’s Notebook: A Quotation with a Life of Its Own.” Patient Safety and Quality Healthcare. July/August 2008. https://www.psqh.com/analysis/editor-s-notebook-a-quotation-with-a-life-of-its-own/


3. Porter ME, Kaplan RS. How to pay for health care. Harv Bus Rev2016; 94:88–98.


#Academiavbhc

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