Buscar

Implementação de VBHC na América Latina: como são medidos os desfechos?

Marcia Makdisse, MD, PhD, MBA, VBHC Green Belt, MSc Health Care Transformation

Educadora, Pesquisadora & Mentora em VBHC | VBHC Educator, Researcher & Advisor.



A mensuração sistemática de desfechos em saúde é um dos pilares da implementação de Value-Based Health Care (VBHC) e um componente fundamental da Equação de Valor que nos ensina que Valor em Saúde é a relação entre os desfechos em saúde e os custos para entregar tais desfechos ao longo de ciclos completos de cuidado.

Porém apenas medir desfechos não é suficiente para gerar Valor em Saúde! Tal medição deve levar em conta alguns princípios, como os descritos a seguir, ou acabraão apenas por aumentar os custos para as organizações e criar mais sobrecarga sobre os times de coleta e as pessoas que respondem aos questionários.


Princípios para a coleta de desfechos em saúde:


1. Vá além dos desfechos clínicos e inclua desfechos reportados pelos pacientes (PROs) e Experiência reportada pelos pacientes.

2. Identifique os desfechos em saúde que reflitam o que realmente importa para cada segmento específico da população avaliada.

3. Garanta que os desfechos selecionados sejam multidimensionais cobrindo diferentes níveis hierárquicos e horizontes de tempo;

4. Identifique métricas validadas, sempre que possível;

5. Desenhe o fluxo de coleta, análise e utilização em processos de melhoria do cuidado e tomada de decisão compartilhada com os pacientes e times clínicos.


No projeto VBHC na América Latina, no qual avaliamos 70 organizações de saúde de cinco países latino-americanos (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e México), observamos que todas as organizações mediam desfechos clínicos, sendo mortalidade e complicações clínicas os mais frequentes, porém em 25% delas apenas esta modalidade de desfechos era mensurada1. Embora medir desfechos clínicos seja relevante eles não traduzem o impacto do tratamento sobre a saúde das pessoas ao longo do tempo, que é melhor medida pelo resultado em termos de qualidade de vida, funcionalidade de reinserção das pessoas na vida social e no trabalho.


A mensuração de desfechos reportados pelos pacientes (PROs) foi reportada por apenas 41,4% delas. Em 26% das organizações brasileiras participantes a medida de PROs era realizada utilizando-se padrões de coleta publicados pelo International Consortium for Health Outcomes Measurement (ICHOM) como parte de um projeto de colaboração com ANAHP, Associação Nacional dos Hospital Privados, e do qual tivemos a oportunidade de participar em 20173.


Os padrões ICHOM em uso citados pelos participantes do nosso projeto foram insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral e osteoartrose de quadril e joelho.


De forma muito interessante, uma das organizações participantes do projeto optou por seguir a metodologia orientada pelo ICHOM para desenvolver standards sets próprios, em doenças reumatológicas que não possuíam padrões disponíveis na plataforma do ICHOM. Tal experiência exitosa foi publicada recentemente pela Divisão de Reumatologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo(4).


Um ponto de atenção derivado do nosso estudo é que embora pouco mais de 41% das organizações participantes coletassem desfechos reportados pelos pacientes, apenas 8,5% utilizavam a informação coletada como uma ferramenta de melhoria do valor gerado, seja para dar feedback aos times clínicos, criando oportunidades para que pudessem ser implementadas ações de melhoria do cuidado prestado ou como parte nas interações clínicas de rotina com os pacientes possibilitando que tais informações pudessem contribuir para a tomada de decisão compartilhada sobre o melhor cuidado para cada indivíduo ou para serem oferecidos publicamente pelos canais de divulgação das organizações e orientar os pacientes e pagadores nas escolhas dos prestadores com maior expertise e melhores desfechos nas condições clínicas ou segmentos de populaçao avaliadas ou até mesmo para possibilitar a implementação de modelos de pagamento baseados em valor, como parte das métricas de performance.


Embora tenha sido animador verificar que em 33% das organizações que ainda não mediam PROs já existiam iniciativas em fase piloto para iniciar tais medidas, por outro lado, pouco ouvimos, dessas mesmas organizações, sobre um plano para utilização dessas métricas para otimizar o valor gerado para as pessoas atendidas.


A reflexão que queremos deixar para nossos leitores é:.


“Apenas mensurar desfechos em saúde não gera valor para as pessoas ou para o ecossistema de saúde. Gera apenas mais custo e sobrecarga de trabalho para todos os envolvidos. Compartilhar e atuar para melhorá-los SIM!”

Referências:


1. Makdisse M, Ramos P, Malheiro D, et al. Value-based healthcare in Latin America: a survey of 70 healthcare provider organisations from Argentina, Brazil, Chile, Colombia and Mexico. BMJ Open 2022;12:e058198. doi: 10.1136/bmjopen-2021-058198

2. Porter ME. Porter ME. What is value in health care? N Engl J Med. 2010 Dec 23;363(26):2477-81.

3. www.ichom.org

4. Bertoglio IM et al. Gathering patients and rheumatologists' perceptions to improve outcomes in idiopathic inflammatory myopathies. Clinics 2022; 77: 100031

Legendas da Figura:


PROMS: Desfechos reportados pelos pacientes

PREMs: Experiência reportada pelos pacientes

PEP: Prontuário eletrônico do paciente


www.academiavbhc.org

www.makvalor.com

#academiavbhc

#vbhc



4 visualizações0 comentário